sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Depoimento de um amigo de um amigo do amigo meu


Um amigo meu me contou que dissera um amigo de um amigo as seguintes palavras:

“Um dia, estava voltado para o mar ali do Rio Vermelho, sentado no parapeito, com uma cerveja na mão, sentindo o vento bater contra o rosto. Nesse dia o sol brilhava amarelo-morte no fim de tarde, assim como fora em qualquer outro dia desde que o mundo é mundo. E seria como qualquer outro dia, caso um louco (ao menos aparentava ser) desses, maltrapilho e descuidado não tivesse me abordado com um questionamento no mínimo interessante. ‘Ô meu filho’ chamou puxando-me para si, enquanto eu sentia uma leve repugnância, ‘o que você acha que aconteceria se a mulher não entrasse no relacionamento com o objetivo velado de não dar?’. Parei, pensei. Aquela pergunta era profunda, mas num lapso de sabedoria respondi ‘o mundo acabaria, moço’. Ele tomou a cerveja da minha mão suavemente, disse que era isso mesmo e foi embora.

Naquele dia o sol demorou a pousar na escuridão.

O que seria do mundo sem o charminho das mulheres? Qual seria o sabor de viver sem a clássica glicose anal feminina? Com certeza a vida seria mais amarga e desgostosa; com certeza as bombas não teriam atingido apenas Hiroshima e Nagasaki. Também outras cidades teriam sido atingidas, pois não haveria nenhuma razão para a humanidade ter piedade da humanidade. Toda uma dinâmica nas relações intersubjetivas seria quebrada caso deixasse de existir o tão popular cu-doce. Não teria mais o porquê de almejar uma casa confortável, um bom carro, um banho quente, um sabonete cheiroso, perfumes, jóias, cereal matinal, Nescau, garfo, faca... nada disto faria o mínimo do mínimo do mínimo sentido e a experiência do homem na Terra seria mais curta.

Por isso, foi num dia e também no pôr-do-sol, lá no tempo das cavernas, que uma vez, um infeliz de um homem se aproximou de uma sábia e bonita mulher. Ao se aprochegar - todo manhoso e com o pênis rígido- e dizer: hum! a mulher respondeu ‘negapositivamente’ com um sorriso no canto da boca e um olhar safadamente cerrado ‘hum,hum!...’. Logo após ter sua resposta e o pênis desprovido de sangue –que agora deve ter ido para a cabeça de cima- o homem teve um estalo (!): é isso, mermão! Ele saiu, caçou, pescou, fez um casaco de pele, salgou a carne, inventou a roda, a luz elétrica, comprou um carro, botou gasolina e voltou pra casa. Ao chegar, de paletó e gravata, todo manhoso e com o pênis rígido fez: hum! Ela mais uma vez respondeu ‘hum, hum...’ e ele não sabia por qual razão tinha ela recusado dessa vez. Voltou pra rua, reuniu-se com outros homens e após longo debate inventou o Estado Civil, a Arte e a Religião. Abriu a porta do seu lar com títulos e condecorações fixadas no peito, todo manhoso e com o pênis rígido, falou:

‘Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,

Que viva de guardar alheio gado;

De tosco trato, d’expressões grosseiro,

Dos frios gelos, e dos sóis queimado.

Tenho próprio casal, e nele assisto;

Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;

Das brancas ovelhinhas tiro o leite,

E mais as finas lãs, de que me visto.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!(...)’ (Marília de Dirceu, Parte I, Lira I de Tomás António Gonzaga)

No final ainda soltou um típico ‘te amo’. Fizeram sexo selvagemmente, um filho e o mundo ser como é.

Por isso, quando o sol se pôs no mar do Rio Vermelho e o vento ficou mais frio, agradeci do fundo da minha alma às mulheres, especialmente a sábia da caverna, por esse jogo de sedução quase incompreensível e por estar ali, sentado no parapeito branco do boêmio bairro. Muito obrigado. ”

Claro que ao ouvir isto do meu amigo, discordei de tudo e vim logo compartilhar meu horror com vocês. Ora, que visão equivocada das coisas! Cada uma que parece duas...

Por Rubico

2 comentários:

  1. adorei! aprecio textos como este, vc soube unir ironia e humor perfeitamente... seu blog é muito bom (:

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