segunda-feira, 20 de setembro de 2010
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sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Depoimento de um amigo de um amigo do amigo meu

Um amigo meu me contou que dissera um amigo de um amigo as seguintes palavras:
“Um dia, estava voltado para o mar ali do Rio Vermelho, sentado no parapeito, com uma cerveja na mão, sentindo o vento bater contra o rosto. Nesse dia o sol brilhava amarelo-morte no fim de tarde, assim como fora em qualquer outro dia desde que o mundo é mundo. E seria como qualquer outro dia, caso um louco (ao menos aparentava ser) desses, maltrapilho e descuidado não tivesse me abordado com um questionamento no mínimo interessante. ‘Ô meu filho’ chamou puxando-me para si, enquanto eu sentia uma leve repugnância, ‘o que você acha que aconteceria se a mulher não entrasse no relacionamento com o objetivo velado de não dar?’. Parei, pensei. Aquela pergunta era profunda, mas num lapso de sabedoria respondi ‘o mundo acabaria, moço’. Ele tomou a cerveja da minha mão suavemente, disse que era isso mesmo e foi embora.
Naquele dia o sol demorou a pousar na escuridão.
O que seria do mundo sem o charminho das mulheres? Qual seria o sabor de viver sem a clássica glicose anal feminina? Com certeza a vida seria mais amarga e desgostosa; com certeza as bombas não teriam atingido apenas Hiroshima e Nagasaki. Também outras cidades teriam sido atingidas, pois não haveria nenhuma razão para a humanidade ter piedade da humanidade. Toda uma dinâmica nas relações intersubjetivas seria quebrada caso deixasse de existir o tão popular cu-doce. Não teria mais o porquê de almejar uma casa confortável, um bom carro, um banho quente, um sabonete cheiroso, perfumes, jóias, cereal matinal, Nescau, garfo, faca... nada disto faria o mínimo do mínimo do mínimo sentido e a experiência do homem na Terra seria mais curta.
Por isso, foi num dia e também no pôr-do-sol, lá no tempo das cavernas, que uma vez, um infeliz de um homem se aproximou de uma sábia e bonita mulher. Ao se aprochegar - todo manhoso e com o pênis rígido- e dizer: hum! a mulher respondeu ‘negapositivamente’ com um sorriso no canto da boca e um olhar safadamente cerrado ‘hum,hum!...’. Logo após ter sua resposta e o pênis desprovido de sangue –que agora deve ter ido para a cabeça de cima- o homem teve um estalo (!): é isso, mermão! Ele saiu, caçou, pescou, fez um casaco de pele, salgou a carne, inventou a roda, a luz elétrica, comprou um carro, botou gasolina e voltou pra casa. Ao chegar, de paletó e gravata, todo manhoso e com o pênis rígido fez: hum! Ela mais uma vez respondeu ‘hum, hum...’ e ele não sabia por qual razão tinha ela recusado dessa vez. Voltou pra rua, reuniu-se com outros homens e após longo debate inventou o Estado Civil, a Arte e a Religião. Abriu a porta do seu lar com títulos e condecorações fixadas no peito, todo manhoso e com o pênis rígido, falou:
‘Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!(...)’ (Marília de Dirceu, Parte I, Lira I de Tomás António Gonzaga)
No final ainda soltou um típico ‘te amo’. Fizeram sexo selvagemmente, um filho e o mundo ser como é.
Por isso, quando o sol se pôs no mar do Rio Vermelho e o vento ficou mais frio, agradeci do fundo da minha alma às mulheres, especialmente a sábia da caverna, por esse jogo de sedução quase incompreensível e por estar ali, sentado no parapeito branco do boêmio bairro. Muito obrigado. ”
Claro que ao ouvir isto do meu amigo, discordei de tudo e vim logo compartilhar meu horror com vocês. Ora, que visão equivocada das coisas! Cada uma que parece duas...
Por Rubico
sábado, 11 de setembro de 2010
O homem que não amava- Parte 2

Após muita reflexão, entre um copo e outro da mesma bebida, nosso herói percebeu: estaria ele num beco sem saída? Resolveu deixar aquele bar de atmosfera acre onde se encontrava e foi caminhar. Estava cansado, quase desistindo daquilo tudo, daquela busca infinita por outro ou por si mesmo. Pra quê curar?!- perguntava-se.
Não sei se o defeito de não amar de fato estava no cérebro- como colocado em comentários do texto anterior-, o que sei é que poderia estar em qualquer lugar: no pâncreas, fígado, baço, medula, nas pernas, braços, intestino grosso ou delgado...
Entretanto, foi com os olhos que ele a avistou. Os olhos não possuíam disfunção alguma, tinha certeza disso. Passava pelo calçadão (comércio e centro da cidade) com as mãos no bolso e cabelo despenteado quando viu por detrás daquele semi-reflexo da vitrine de uma loja coisa tal que fê-lo parar. Sentiu seu coração ficar num ritmo mais intenso e gostoso, sentiu euforia, felicidade inexplicável.
Era preta, magra, fina, e que design... brilhava parecia que com luz própria. Estava ali: parada. Ele olhou para ela e percebeu que ela também olhava para ele, começara o flerte, a sedução. Seu coração agora palpitava tanto que sentia seu intestino revirar. Isso não era bom. Logo agora o intestino grosso inventou de funcionar?! Apesar disso continuou. Sentia-se fortemente atraído por ela. Entrou na loja timidamente, pediu informações ao funcionário preguiçoso que por acaso estava ali. Disfarçou. Depois disso foi chegando perto, não acreditava que estava fazendo mesmo aquilo!
Quando se aproximou o suficiente para tocá-la, senti-la, entristeceu-se de vez. Era muito cara! Dois mil quinhentos e oitenta reais por uma televisão? Tudo bem que parcelavam em dez vezes sem juros... mas não tinha cartão de crédito e ainda com a mão no bolso sabia que não possuía um tostão furado que fosse! Gastara tudo em mulheres e bebidas. Transtornado, com uma dor incessante no peito, correu rua a fora freneticamente. Chorando desesperadamente, correndo entre os carros, tropeçando nos buracos do asfalto não percebeu uma bicicleta vindo em sua direção. Ao colidir, o ciclista saltou como se a gravidade não existisse e nosso herói caiu, bateu a cabeça contra o chão. Num ultimo fio de vida percebeu que seu coração tinha saído do corpo e pousara na mão. Um coração, apenas tecido sanguíneo, plasma e plaquetas, músculo contraindo e relaxando... agora morrendo. O ditame sístole!diástole! ia enfraquecendo mais e mais.
Ele olhou, admirou e morreu.
Apesar de tudo, Deus garantiu o lugar da sua alma no céu. Ao chegar diante dos portões do paraíso, ouviu uma voz cheia de paz que afirmava ser ele puro. Não amava, isto era certo. Por outro lado também não odiava. Teve assim- como consolo talvez- os portões do céu abertos e a paz eterna.