terça-feira, 22 de março de 2011

DIA DE MORTE

A água fria batia na parte posterior do pescoço causando uma sensação incômoda. O olhar firme na parede refletia uma mensagem fixa: É hoje. Hoje é dia da minha morte.



Não se sabe o porquê daquela certeza ter surgido numa manhã ensolarada de forma tão repentina.
Por que hoje, por qual diabos hoje? A água batia e batia ainda gelada. A razão não se revelava e ele continuava a procurá-la ali dentre as fendas cheias de limo dos azulejos. Teria sido por causa do café preto de mais? Dos cigarros esporádicos? Da esmola negada ou do xingamento proferido contra os céus na noite anterior? Será que suas semelhanças de caráter com o pai provocaram a ira do Senhor Deus Todo Poderoso, pois negam a evolução de espírito que há de existir entre as gerações, será essa a razão da sua morte? Faz até sentido: se é tão parecido com o pai, se tem os mesmos defeitos e vícios, é uma alma inútil e repetida, perdida no meio do espaço. Por esse prisma, justa era a idéia do fim. Cansou-se de tentar desvendar e aceitou.
Pois então, como um bolero, o de Ravel, aquela idéia mórbida vinha emergindo, crescendo, tornando-se consistente, alta, volumosa, precisa e calma. É certo. A morte chegou e a água nem era mais tão fria assim.
Ele desligou o chuveiro sabendo de sua finitude.

por pedro victor vilas boas

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