Depois de um final de semana perfeito com a família na península de Maraú, onde tudo tinha saído tão certo: a bola, o gol, o toque, o futebol moleque, a cerveja (sim, bebi de novo), o almoço, o jantar, a praia, o sono, o violão, o pé-de-manga (sim, subi nele), o jogo, o quarto, o abraço, o pastel com carne-do-sol e aimpim (sim, eu comi ele), tudo saíra perfeitamente bem. Depois disso veio a despedida e a viagem.
Comprei passagem para o ônibus de 23:30 que só chegou 23:47. Entrei, acomodei-me na poltrona 29, na janela. O ônibus era grande, confortável, apesar de semi-leito e barulhento. A porta do banheiro batia incessantemente produzindo um barulho perturbador de qualquer sono. Estava bastante cansado por causa da praia matinal e por que não havia dormido pela tarde, mas qualquer sono era impossível diante daquela barulheira infernal. Enfim, depois de vagar em pensamentos consegui abstrair um pouco de toda a perturbação e cochilei.
Cochilo em ônibus é aquela coisa: você balança prum lado, pro outro, pula o quebra-mola junto com o busu, ou seja, é uma dormida bem descarada. Eu tava lá, em paz - é bom que se diga, quando acordo e para minha surpresa havia um cidadão do meu lado. Esse individuo, não se contentando apenas em dividir as poltronas, estava também com o bufante virado pra mim. Estranho... mas a viagem segue. Durmo de novo. Acordo com o cara se mexendo e se ajeitando pra mais perto de mim. Estranho... mas a viagem segue. Fiquei observando tensamente o comportamento do meu vizinho e não me conformei ao notar que ele vinha se aproximando mais (e eu me comprimindo na minha poltrona) e mais, e mais, até a hora que o indesejável aconteceu: ele me tocou. Tocou-me na face externa da minha coxa direita com glúteo esquerdo. Tocou-me e parece que se sentiu amparado, aconchegado e confortável, pois não saiu mais da posição. Continuei ali, constrangido e coagido psicologicamente, sem saber o que fazer, cheio de dedos com aquela situação. Ainda não satisfeito, entre um solavanco e outro, o glúteo esquerdo dele atritava na minha coxa direita produzindo uma sensação incômoda e adstringente. Era o fim.
Tentando resgatar minha dignidade, levantei-me. Olhei pra trás e vi que existiam não só uma nem duas, mas quatro poltronas vagas. Sentei e com calma, gentileza (e ódio), disse: Sr., caso não se importe, existem poltronas vazias lá atrás. Ele fingiu se assustar como se estivesse acordando, depois levantou e fingiu estar atordoado ainda do sono, resmungou duas coisas e triste, cabisbaixo foi sentar-se nas poltronas desacomodadas. Senti a decepção no olhar daquele homem. Que infeliz...
Ufa! Acabou o contato! Era eu pra um lado e ele pro outro. Agora sim seguia a viagem sem estranheza nenhuma, sem ninguém do lado. Dormi novamente.
Já era dia e alguém me acorda timidamente. Era o mesmo cara, agora me avisando de longe que a viagem terminou. Após mais aquele gesto de "carinho" fiquei pensando: que meigo... ele só queria ser meu amigo.
por pedro victor vilas boas
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