
Era pra ser só mais um pôr-do-sol na fazenda: a poeira, o crepúsculo, o capim, o vento fresco, os amigos, a vodka barata misturada com guaraná e The Smiths tocando “How Soon Is Now?” loucamente ao fundo. Pelo segundo dia seguido íamos pra lá.
No primeiro dia foi tudo um pouco tenso muito por razão de um boi macho-alfa que se encontrava por ali. Ele empinou o rabo, cavou a terra, encarou, cercou, fez tudo o que tinha direito. Ameaçou. Senti-me ameaçado. Foi o suficiente pra bater o velho vazari, isto é, a “sipiquera”, ou no bom francês, o “umbóvázát”. Pois é, fomos pra casa mais cedo por causa da porra do boi e decidimos voltar no dia seguinte.
Era só pra ser mais um pôr-do-sol não lembro onde. Não lembro ao certo se vodka ou vinho, e se vinho branco ou tinto, mas lembro que estava tomando. Não lembro ao certo quantas fotos nos tiramos nem quantas pessoas estavam lá, mas lembro que no ápice da canção, bem no refrão “I am Human and I need to be loved just like everybody else does”, olhei pra uma vaca e pensei: como é bom ser humano.
Era só pra ser mais uma relação fugaz com um bovino, entretanto percebi que a vaca é tão ruminante, um ser diminuto em sua expressão existencial, quadrúpede, artiodátilo, mamífero (vá lá), tem função em seu nicho (tudo bem), mas nada além disso. Olhei bem para o meio do crânio dela e percebi que dentro daquela imensa cabecinha não havia complexidade de sentimentos, angustias, aflições, felicidades, ambições, não, nada disso. Aquele ser apenas queria continuar sendo aquele ser pro resto da frágil vida que lhe foi dada. Logo depois, olhei no fundo dos olhos do animal. Ele também me encarava. Tomei um gole de minha bebida, degustei, apreciei. Não achei um fio de alma dentro daqueles olhos que nem brilhar brilhavam, não senti nenhum coração batendo, não houve diálogo.
Opaco.
Mais um gole.
Apreciar vodka barata é trabalhoso. Mas e daí? Eu posso fazer isso. E o fiz só por vaidade. Sou humano. Superior. Posso admirar coisas, sentir, odiar e amar, diferentemente do animal qual estava de fronte. Pode ser o cúmulo da prepotência, ou da bestialidade, ter vaidade perante uma vaca, mas confesso que me senti bem. Prepotente foi aquele boi que me ameaçou a troco de nada... aquele ruminante miserável, quadrúpede infeliz de expressão existencial diminuta e de flato causador do aquecimento global, contemporânea tragédia humana.
O caso é que nos também estamos limitados a uma estrutura bio-química, assim como as vacas, besouros e bactérias, é bem verdade, porém temos a capacidade de superar, transcender e ir além; de alterar, ampliar ou anular a percepção dos tradicionais cinco sentidos. Essa é a grande sacada humana: extravasar esse confinamento molecular, físico, através da mente, da música, da escrita, da mensagem, do outro.
Enquanto meus amigos me convidavam para beber um pouco mais, fiquei me perguntando se a humanidade que nos foi concedida é uma dádiva, se é Divino, se é a maior possibilidade de vida - pelo menos nesse planeta. Dentro de uma concepção filosófica barata, rápida e ébria (sobretudo ébria), o que era pra ser só mais um pôr-do-sol se tornara em um “sim, com certeza é”.
So... Enjoy. Cuspa. Você não é uma vaca, meu amigo.
por Pedro Victor Vilas Boas da Silva
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