sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Não é o Índico, nem o Pacífico, tão pouco o Atlântico.


Morar sem a presença dos pais está sendo para mim uma experiência no mínimo interessante. Envolto nesse novo estilo de vida, provo todo hora, dia e semana as duas bandas do fruto.

No começo parece que o fruto é liso, puro, vem a parte boa: nada de amarras, administração autônoma, liberdade de ir, vir, chegar e permanecer a qualquer hora, tempo e espaço. A vida corre em suas mãos. E o melhor de tudo isso é que ainda não pago por essa liberdade (fiz um acordo financeiro com a Paitrocínio Financiamentos S/A e com outras instituições mãenetárias).

Por outro lado, você acaba de notar que já comeu toda banda boa e chega a parte ruim, desgastada, ou até podre, do fruto. Sim, senhoras e senhores! A coisa começa a se reverter. A liberdade começa a pesar: comeu o que quis, lavou o que não quis; sujou, limpou. Ninguém nem nada te ajudará. No final das contas, morar só é um desafio.

Dentre os inúmeros desafios possíveis numa casa, como lavar banheiro, roupa e prato, varrer, limpar, esfregar e ensaboar (mulata), o mais complexo é o de cozinhar. Caros amigos, cozinhar é uma navegação! Sim... uma navegação onde o destino é sabido, só não se sabe como chegar lá. Passa-se por águas tenebrosas e incertas; por vezes a nau afunda, por outras se chega ao paraíso.

Só para ilustrar, o quinto mais escuro da minha casa é a cozinha. Negra, terrível, desconhecida, cavernosa, um oceano de incertezas. A cozinha figura na penumbra.

Certa feita tive de fazer um feijão. Quando se mora só, sem pais, empregadas, mordomos ou algo do tipo, o sistema logístico-operacional que predomina na cozinha é um “Just in time”. Ou seja, nada de estoques fordistas ou armazenamentos em grande quantidade, pois o risco de perder sem usar é muito grande. Compra-se tudo na hora: tempero verde, tomate, cebola, carnes de feijão etc. Nesse mesmo ritmo, lembre-se que na sua cozinha não existem todos os aparelhos necessários como um super Juicer Walita de 5000W, ou uma super torradeira, ou então um super simples abridor de latas – outro dia percebi isso e tive de abrir uma lata de sardinha na marra com uma faca. Provações, meus caros, provações...

Outro detalhe é que na cozinha existe um ritual de iniciação. Isto é, precisa-se de mestres com maior qualificação, alguém com mais experiência e um pouco de didática, alguém que lhe dê uma direção para seguir, que lhe aponte o Cruzeiro do Sul ou a Ursa Maior. No meu caso, agradeço a João e Allan, dois companheiros que coabitam junto à minha pessoa. A iniciação tem de ocorrer pontualmente às 7:14h da manhã, com todos de branco, banhados, cheirosos e perfumados, descalços, compenetrados e além de tudo comprometidos, com foco, foco culinário. É na iniciação onde se escolhe a fonte doutrinária maior, podendo ser um livro de família, um programa de TV ou a pura intuição (pois é, na cozinha a intuição é fonte de doutrina). No meu caso, escolhi mesclar a intuição com o programa “Larica Total” do Canal Brasil. Fontes bastante válidas e ousadas.

Voltando, meu primeiro feijão foi uma navegação bem sucedida, modesta parte. Ficou divino, uns dos melhores feijões que já comi. Mas um dia ele acabou e tive que fazer outro. Orgulhoso, soberbo e prepotente que sou, deixei meus pseudos-dotes culinários subirem à cabeça, infringindo o 3º dizer da iniciação: “seja humilde, porra! Você não é gourmet”. Meu segundo feijão saiu ligeiramente queimado. Tive que limpar panela-de-pressão queimada e ainda tento comer o maldito até hoje, misturando-o a outros feijões.

Essa é uma das regras básicas: fez a comida, não prestou, dê um jeito de comer, meu amigo. Vai jogar fora é, seu irresponsável? Claro que não! Recorde que você não mora com seus pais (recordou?), logo, é responsável por todos os seus atos, inclusive por comidas mal feitas. É triste, sofrível, mas é a dura realidade.

O pior de tudo é que ao tentar reaproveitar os experimentos culinários frustrados você pode ser acometido por uma disfunção intestinal repentina, sorrateira e inconveniente. Numa bela manhã de domingo ou sábado você percebe que algo está errado, que seu intestino se mexe agora mais do que deveria, e não sabe o porquê, se fora o feijão queimado, o frango mal passado ou o suco envelhecido.

É meus amigos, temos que ficar espertos, pois não é o temido Índico, nem o obscuro Pacífico, tão pouco o conhecido Atlântico, é a cozinha o mais terrível dos mares. Ainda mais pra quem é marinheiro de 1º viagem. Não invente, seja prático e ande sempre com um kit de primeiros socorros.

Para quem quiser se aprofundar e sentir um pouco mais disso que falo, assista ao Larica Total. Ficará tudo bem mais claro.

Aqui segue o link:

http://www.youtube.com/results?search_query=larica+total&aq=f

Cliquem!... e divirtam-se


Por Pedro Victor Vilas Boas (Rubico)

3 comentários:

  1. excelente escrita, muito bom tema.

    sempre,
    M.

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  2. É meu caro está aí um grande problema!
    Graças que não me pertence.
    Se quiser depois passo uns sites bons pra vc treinar.
    Hahahahahaha

    Ps.: Tô devendo texto!
    Hehehehe

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  3. nossa, será que comigo vai ser assim tambem? pelo menos nao corro o risco de fazer feijao queimado, ja que nao como feijao rs

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